quarta-feira, junho 13, 2012

Você é o abismo. Pt I




Acordou de manhã, mas permaneceu deitado por mais algum tempo.

La fora a cor é cinza. A avenida inquieta.
As crianças gritam na quadra antes de ir para escola.
Milhões de rotinas e rituais.

La dentro, apenas um.
As cores estavam onde deveriam estar; como sempre estiveram.
O som abafado da avenida e um rádio no volume mínimo.
Viu sua mulher dormindo, queria ficar mais.
Vestiu-se como sempre fazia e preparou o café.

La fora convoca milhares de pessoas que gostariam de ficar mais um pouco. La fora cria a rotina de dentro.
O cheiro de café, misturado com o cheiro de fumaça, cigarro e variados perfumes infestam as calçadas.
Murmúrios matutinos nos pontos de ônibus superlotados.
Um farol com sua luz vermelha faz criar imensas fileiras de carros engasgados.

Pegue de dentro o que precisar, mas la fora as coisas adquirem um valor diferente.

Nota-se, vez ou outra, quem ainda não dormiu. E o ponto lotado reserva um lugar especial para quem acabou de acordar; dentro do ônibus que agora faz parte da centopéia mecânica, rastejando entrecortada, pela luz do farol.

La dentro ela desperta sem ele ao seu lado.

A ausência transformou-se em um ruído abafado da avenida la fora.



sexta-feira, junho 08, 2012

Todo

Antes que a vida
Seja breve
Um dia
Mais breve

Ainda

Que seja tarde
Ou uma noite
Sem luar

Antes que o todo acabe;
Torne-se escasso

Um dia
Nunca acabar

Quer seja a paz
Vinho
ou poesia.

terça-feira, junho 05, 2012

"Ali e nada é a mesma coisa"

Andava na estreita calçada com um olhar distante e um sorriso torto no rosto.
Ouvia tudo mas era surdo;Enxergava mas não via nada
Sentia o odor, mas não importava.

Com cuidado, embrenhava entre as pessoas para poder passar e mesmo em contato com a realidade, não percebia o toque.

E assim continuou pela estreita calçada até enfrentar a fronteira com a rua.
Atravessou na mesma condição,alguns diriam, alienada.

Seguiu até sua casa. O tempo trouxe lhe imensas olheiras. Sua pele ficou pálida e ressecada.

No entanto, tinha se passado apenas seis meses.

As pessoas mais próximas, não sabiam o que estava acontecendo. Em um ano, tornou-se velho de mais para fazer a maioria das coisas que as pessoas de sua idade faziam.

A única coisa que permanecia, era o olhar distante, meio alienado e um sorriso torto.

Em dois anos, tornou-se um senhor debilitado aparentando uma idade muito avançada.

Foi então que sentiu a primeira coisa em sua vida. Sentiu que iria partir.
E neste momento, pouco antes de morrer, toda a time line do facebook passou diante seus olhos.






quinta-feira, março 29, 2012

Eu Salto

Aqui tem um pouco de tudo
Tem crença e descrença
Quem para e avança

Compra-se ouro
Vendem-se almas
Trocam-se olhares

Gente sentada em baixo das arvores
Dormindo no esgoto ou
Em prédios absurdos

Condomínios de luxo
Na fronteira com favelas desmedidas

Tem amor pra quem ama
E ódio ninguém nega também.

Grito, melodia, ruído
Canto do pássaro e do moribundo

Felicidade e tristeza
Idéias, culturas borbulhando

Há vida por todo lugar
Pra quem se importa com tudo

E pra quem só olha para o próprio pé
Tem também.

Gente muda, cega
Sem braço e sem perna

Há a safadinha noturna 17
Que lhe faz de tudo
Pra garantir um dinheiro
Antes do final do mundo

Gente inteligente de pensamentos mil
Outras tantas que mil são as preocupações

Indigente sorrindo indiferente
De baixo do teto feito de via duto

Milagre e Luto
Morte e vida

Serve para quem só se faz chorar
Mas tem espaço para o sorriso

Há ousadia, dança, abuso
Rebeldia, restos e susto

Tem um monte de migalhas para os pombos
E nada de migalhas de pombos para tanta gente

Tem rato, aranha, pássaro branco e escuro
Até urubu pintado de verde
Em cima do muro.

Arranha o céu nublado
Arrasta a pele no banco de praça

Vastas ruas ligadas
Ligando as rosas dos ventos sujos

Tem helicóptero, avião, carro
Sapato bicicleta e descaso

Ar imundo, seco, úmido
É a terra de quem não ama
Mas também a terra de todo amor do mundo

Um paradoxo
Do microcosmo do pão com café
Na padaria do seu Julio

Arte e inflamação
Mentira e Verdade

Superficial, profundo

Eu paro:

Reluto

E com tudo eu salto

Nestas multireflexões

São Paulo.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Miragem de nós IV

Sempre houve um fator desconhecido,tanto que
quando saímos aquele dia
Ela ficou muda

Sentou na mesa e só depois do segundo copo de cerveja
Começou a falar

Falava amenidades, coisas sobre o clima, os carros passando,
o cabelo engraçado de alguém...

Eram palavras soltas, que, por mais que fossem aparentemente banais, omitia algo;
Um contexto perturbado.

Sua mão atravessou a pequena mesa de plastico
E repousou em cima da minha.

Segurou firme por um momento,
Depois relaxou.

Propôs uma bebida mais forte,
Aquela seria uma longa noite