quarta-feira, maio 23, 2007

Crônicas de um cotidiano barato. Parte II



Sento e mecho no computador, que consegue me alienar por um tempo, até eu decidir comer de verdade.
Dia pós dia, eu me arrasto no tempo e as folhas do calendário voam pelos meses que passam e que batem contra a minha cara, incomoda um pouco isso, tento não ligar, mas a cada garfada é algo que eu penso.
A comida é saborosa, mas não sinto lá muito o gosto, só sei que é gostosa por que tudo que a minha avó faz fica gostoso e sei que não é ela sou eu.
O meu almoço me faz lembrar pessoas passando fome, e droga, tem umas carnes no meio. Aquilo por alguns segundos se torna uma tortura. Às vezes certas ideologias conseguem transformar o seu almoço em tortura. Mas de verdade? Eu não ligo. Serio mesmo. Isso passa dentro de alguns segundos. Pessoas passando fome, animais sofrendo enquanto eu simplesmente quero me alimentar, ninguém se sente culpado nem eu, mas confesso que é algo triste. Pois eu comendo ou não, pessoas ainda vão morrer de fome, animais ainda vão sofrer, mas confio em quem está engajado nesses assuntos, assim que der, quem sabe eu não me junte a alguma ONG. Mas agora eu simplesmente quero me alimentar, só isso, e com carne ou sem não me sinto pecando e é isso que passa dentro de alguns segundos e poucos minutos.
Termino de almoçar e agradeço minha avó, faço alguma brincadeira com ela e volto pro meu refugio, meu quarto.
É eu tenho tempo, tempo que muitas pessoas gostariam de ter. É simples apontar e falar. Todos esses prostitutos do sistema dizem isso pra mim. Só por que eles se vendem por um serviço que nem gostam tanto de fazer e eu não.
A questão aqui é o dinheiro, eu por enquanto estou me virando com o dinheiro do seguro, mas sei que isso só dura mais dois meses, pois já peguei a grana do mês passado.
Enfim, meu ultimo emprego não era lá uma coisa que eu adorava, mas não chegava a ser um subemprego. Eu ralava, não era tão simples assim, não mesmo.
Quando sai (quando me tiraram, diga-se de passagem) me vi livre de um lugar cheio de hipócritas, como todos os outros lugares. Tem quem se salve, mas de uma forma ou outra nesse âmbito fazia menor diferença.
Agora me vejo com tempo, pensando de mais e de menos. Escutando palpites, opiniões, elogio, critica, mas eu não me incomodo com nada disso, pois eu sei que quando se está parado, você vira um alvo fácil mesmo, a partir daí é só ter uma boa peneira moral.
Se eu estivesse fazendo qualquer merda para me alienar ninguém falaria nada.
Não sou contra trabalho, não é isso, eu acho que esse é o maior fator de amadurecimento de uma pessoa, e o maior fator de encaixá-las num sistema, como uma peça de lego. Cabe a cada um, saber se está no lugar certo. Eu estou vendo onde eu melhor me encaixo, enquanto tenho tempo pra fazer isso, ou seja, enquanto estiver ganhando o dinheiro do seguro.
Mas não me sinto assim por causa do emprego, na verdade, isso é uma das coisas que eu menos penso, de uma maneira ou de outra eu sei que vou ter que acabar me enfiando de novo em algum lugar cheio de hipócritas, ai sim isso me deixa um pouco triste.
Dinheiro é uma merda mesmo. Dinheiro não é solução de nada, dinheiro é o problema mesmo. Se não fosse por ele metade dos problemas do mundo não existiriam. As pessoas criam problemas usando dinheiro e afundam num poço onde só o próprio dinheiro que meteu ela lá pode tirar, e isso é péssimo.
Se eu pudesse viver sem dinheiro eu com certeza abriria mão disso. Mas infelizmente já vivo subliminar num mundo corrompido.
Eu sei, eu sou um cara novo ainda e tenho muita coisa pra aprender. Gostaria de receber uma carta de mim mesmo de quando eu tinha uns 14 anos. Pra me ensinar mais.
E quando eu tiver 30 anos vou querer receber uma carta de quando eu tinha 25. Eu ainda vou escrever uma carta para mim mesmo quando estiver 25.
Fico com vontade de fumar um cigarro, sempre tenho essa vontade depois que eu almoço.
O relógio já beira três horas.

8 comentários:

dän disse...

modifiquei o texto dan!
sei la, toda generalizacao é burra.
e preconceituosa! e eu nao sou desse tipo de mulher q fica achando q todos os homens sao iguais, por isso coloquei antes que elas vêm com "aquela ladainha toda"! apaguei essa parte pq nao quero ofender ninguem :) falar sobre temas subjetivos é complicado.

Paulo Fernando disse...

Muito bacana a sua crônica. Da maneira como o mundo caminha hoje em dia, não basta pensarmos apenas no nosso bem estar espiritual.
O maldito dinheiro dita as regras de uma sociedade estigmatizada. Somos um exército com um comandante que não se preocupa com os comandados. O capitalismo é uma forma, sim, de totalitarismo: os ricos mandam e os pobres obedecem - mesmo sem saber disto. Mas a juventude é a solução, começando por vc!

Abraçosssss

Bárbara disse...

Quanto a gente se sentir culpado enquanto a gente come e outras pessoas passam fome, pelo menos todo mundo se sentiu uma vez ou outra na vida, mas pqe vce levaria em consideração a opinião de uma vegetariana? -_-
Pelo menos vce tá consicente

To no auge dos meus 14 anos, devo começar a escrever uma carta pra ler quando tiver 25? Mas até lá eu vou ter mudado, é sempre assim, a gente sempre tá em constante mudança. Ou deveria

dän disse...

Dan... hj eu li com calma.
Vc escreve muito, menino!
Te admiro! super beijo.

Chuck disse...

Do mais Belo e Triste
certamente é expor a flor e a dor
coloca-las na janela.

Pensar demais , talvez seja crime (...)

Ser Humano nos tempos da Cólera é inexplicável.

Enquanto, isso ,la fora talvez garoe . E que inveja da garoa que é inocente.

dän disse...

o "oi" do dia.

J disse...

Comentaria sobre a carne, talvez sobre o dinheiro.
Talvez eu pensaria sobre tudo isso,
mas não acho que entendi o que quis dizer:
E grande poeta amigo
Eu também, juro nem ligo.
Porque são cronicas de um cotidiano barato,
E por também conhecer esse cotidiano tão bem.

Thathá disse...

"Dinheiro é uma merda mesmo. Dinheiro não é solução de nada, dinheiro é o problema mesmo. Se não fosse por ele metade dos problemas do mundo não existiriam. As pessoas criam problemas usando dinheiro e afundam num poço onde só o próprio dinheiro que meteu ela lá pode tirar, e isso é péssimo.
Se eu pudesse viver sem dinheiro eu com certeza abriria mão disso. Mas infelizmente já vivo subliminar num mundo corrompido."

Sempre expressando coisas que eu sinto muito melhor do que eu mesma poderia fazer!!!! Esse é o dom...não basta escrever bem, muitos escrevem bem, mas raros possuem essa essência, esse dom...isso não se aprende, se sente e se expressa!!!! Parabéns!!!

Obs: Escreva uma carta pra você mesmo a cada ano, guarde num lugar especial e leia sempre que se encontrar indeciso...perdido, tentado, sempre que achar q ta na hora de fazer um balanço!!!